quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Luzes Caídas Em Um Poço

       “Todo sábado é assim” diz uma canção popular, más nem todo sábado é assim digo eu. Era manha o sol nascia, e ao mesmo se punha, a trazer “tristes noticias”, não consigo entender como o sol que tanto ilumina poderia se fazer porta... dor, esta palavra dividida ao meio pode nos levar a vários caminhos. Penso que deveria ser pouco mais de seis, pra um menino que tinha quase a mesma idade da hora, criança da roça é assim levanta junto com o ronco do engenho, com o canto dos pasarinhos que faz matina ao redor de sua janela, parece quase falar levanta moleque vem ver que lindo dia, vai ser um dia único? Assim o ultimo menino, o sétimo filho da casa levantava, espreguiçou o corpo franzino, tirou as remelas em uma gamela que servia de lavabo, lavabo que nome feio preferível gamela, é cheio de significância, o povo é assim uma palavras tão bonitas cai em desuso, em contra partida chega outras pobres no uso, pra mim as palavras tem ressonância, precisam vir como musica, bater em meu tecido onde faço as improváveis costuras.
       A mãe de sétimo há esta hora estava na maquina fazendo a emenda pra... lamenta, o ocorrido, enquanto o radio tocava Cascatinha e Yanhana na doce melodia Colcha de retalhos, sem saber que as oito seu coração estaria também aos pedaços, suas pernas pedalavam a velha maquina, seu filho artioso aprontava das suas, dê repente se ouve um estampido, um barulho indefinido, logo se fez movimentação no terreiro ninguém se deu conta do que seria, coração de mãe não se engana, desceu por traz do engenho, foi em direção da taxa, imaginando o preço imposto, caminhando  rumo a mangueira que estava repleta de doces frutos, más o que ela iria recolher era amargo, ao tronco da arvore o corpo estava estirado em meio as doces mangas coquinho ou ubá,naquela situação mas parecia espada que transpassava o peito daquela mãe; Dona Maria deu um grito e dê repente era aquele alvoroço entres os filhos e companheiros que ajudavam na lida.
      A vida às vezes porta... dor, outras a dor abre uma porta, naquele momento ninguém sabia como se comportar frente ao menino desfalecido, se tocavam nele ou não, caiu de uma grande altura?, Qual seria a gravidade! Pior, estava vivo ou não? Depois de um pouco de agua fria jogado na cara, o bichinho abriu os olhos dando sinal de vida, muitos acharam que foi milagre porque tomaram o pulso e não tinha sinal, será que ele morreu e reviveu? Bentinho dizia com seu jeito engraçado, “credo em cruis acontece isso de mancedo, onte memo ele tava brincano todo limoso, ágora morri e veve” Fivei ainda disse, “esse minino tem é o corpo fechado”Fivei era como chamavam o filho mas velho de Ambrósio, na verdade seu nome era Francisco, tinha também o finovo que era o Sebastiao, o fato que aparentemente tudo estava bem,depois de um dia perceberam que o pobre estava ficando com o pescoço torto, dai a três que foram procurar um hospital e ter o diagnostico ele quebrou a cravicula!Seu velho pai levou uma bronca dos médicos que imediatamente internou o garotinho, com certeza aquele povo nem sabiam o que era clavícula, pra eles era aquele ossinho do lado do pescoço.
      O fato que sétimo ficou mais de oito dias no hospital com o pescoço preso a um cabresto, um peso pendurado pra endireitar o estrago, foi à primeira vez que ele havia saído da roça pra visitar uma Cidade, no inicio ficou arredio feito um potrinho depois foi se acostumando as novas condições, como tomar sopa pelo canudo; seu pai comprou uns livros para ele passar o tempo, não havia frequentado sala de aulas devido a pouca idade, más conhecia bem as letras, foi alfabetizado por sua irmã mais velha que sempre lhe contava historias do livro Perolas infantil; dormiam enrolados a sacos de estopa para completar as parcas cobertas, o hospital acabou sendo uma descoberta praquele gurizinho que tomou de tal forma gosto por leitura, em pouco tempo fez amizade com todo mundo, andava pelos corre...dores ganhando a cada hora escritos em seu gesso, seu corpo engessado do umbigo ate o queixo, mas as ideias flutuavam para além daquele espaço, seu pescoço estava inerte mas a cabeça voava nas possibilidades infinitas deste novo mundo que descortinava a seus olhos, até então seu mundo real era de um monte ate outro, e um vale, agora tinha ganhado um vale transporte para o mundo, não sei, talvez o mundo transportou-se a ele.
      Enfim o bom filho a casa torna, depois de uma quinzena fora daquele lugar, não conseguia entender como tudo havia mudado, seus amigos que vinham visita-lo queria saber de tudo da cidade, eles nunca haviam saído dos entre montes, Sétimo ficava horas e horas contando suas aventuras e desventuras no ambiente urbano, o que eles conheciam mais parecido com a palavra urbano era o abano que suas mães usavam para peneirar o fubá, eles às vezes pareciam o próprio fubá na liga daquelas historias, os olhinhos flamejavam como se enxergassem tudo que Sétimo contava, dizem que sete é conta de mentiroso, mas o que narrava era a sua mais pura verdade se aos outros parece mentira ai são outros quinhentos. Cada visitante escrevia mais e mais em seu gesso, quase não encontrava mais espaço para palavra, sem se aperceber que a palavra era seu espaço.
       Falando nisso cada paragrafo que inicio dou sete espaços para começar, talvez seja influenciado por Sétimo, ele ficou vinte e um dias de gesso, ou seja, três vezes sete, pior mesmo que justo neste dias inventou de pegar catapora, era bem melhor pegar caipora, se bem que caipora ninguém pega, a danadinha disfarça seu rastro, más catapora debaixo do gesso era de deixar qualquer um inquieto. O menino que de uma queda foi ao chão ficou para sempre impregnado com aquele gosto de terra, a vida na tentativa de entortar seu pescoço não conseguiu porque os médicos deram jeito, más jamais conseguiram endireitar suas ideias, o gesso enrolado a seu corpo não imobilizou sua criatividade, as palavras escritas tendo seu corpo como o rolo do papiro ficou pra sempre registrado no DNA de sua alma, enfim o amargo tombo na arvore deu doces frutos, aquela manha onde o sol foi porta... dor, abriu a porta do impossível, assim  nasceu o gosto pelo fruto da palavra, fez dela sua arte, na roça podemos ser levemente rosados pelos montes de possibilidades que nos é  apresentado.
       Fico a pensar no dito de Bentinho, que Sétimo havia morrido e ressuscitado, tinha ali uma boa dose de verdade pré-anunciada, também refleti o que disse Fivei,este menino tem o corpo fechado, pode ate ser, mas um coração aberto para o mundo encantado da palavra, naquela hora pode ter morrido qualquer coisa menos o menino, que  se manteve vivo em sua alma. O próprio Bentinho já pertence a outras moradas, mas quer ser imortalizado em nossas memorias, aquele sim era um mentiroso de mão cheia, além disso, era pescador, ágora neste instante jogo meu anzol ao poço a pesca... dor da saudade, quem sabe fisgar uma de suas historias.
       Minhas memorias são luzes caídas em um poço, vez em quando alço o anzol com cordas infindas, em busca de lembranças “esquecidas” fisgando-as com paciência, umas se faz lambari vivem a flor d’água, nesta emoção faço meu jardim, outras se parecem traíras chocando, quase impossível morder a isca, têm ainda os bagres que ficam nas aguas turvas e profundas, onde tenho que regular bem a carretilha, difícil são as que se fazem piaus lindas e coloridas, más brigam ate o ultimo instante pra não sair do poço, pra bem escrever, têm que ser bom pescador em toda ressonância e significado da palavra, o pescador gosta de noites de lua nova, igual ao escritor nesta atmosfera traz as emoções mais profundas.
       Agora nova... mente dou sete espaços, é preciso uma nova mente recheada de lembranças a pescar vez em quando no poço da saudade, nesta direção dou bem mais de sete passos a pensar como é engraçada a vida, nasce um poeta no susto, faz sentido pois a poesia nasce do espanto, a vida de Sétimo se revestiu de encanto, aquele menino mirado desde cedo foi enfronhado na palavra que se fez travesseiro a cochichar toda noite em seus ouvidos, que por sua vez, era pura escuta.

Nenhum comentário: